Por um Litro de Ypióca


Como todos sabem (ou não), sou músico, desde os meus 15 anos permeio por este ramo árduo, sofrido e desgastante, mas todo artista sofre, e isso não é de agora, vem desde os tempos dos reis aqui no Brasil, o bom sabedor conhece os casos e causos de artistas (músicos) desta época, sem contar os “vagabundos”, adjetivo usado para os músicos do nosso amado país nos anos 50’s e 60’s, e por aí vai...

Destes quase 15 anos de música, há 10 sou um profissional da área (ganho pelo que faço e vivo do que ganho com a música), seja atuando como produtor, cantor, músico e o que mais gosto, docente. Sempre vivi da música e tenho orgulho de falar isso, que pago minhas contas com tal privilégio divino.

Pois bem, em 2003 surgiu a Banda Kaoss, exatamente no dia 13 de julho (dia mundial do rock), com uma proposta de fazer Pop/Rock em nossa cidade, e com músicas autorais, ato este que se tornou um desafio em uma região CHEIA de bandas de “forró”, mesmo assim, apostamos nisso, nós da Banda Kaoss, que na época era formada por Moises Roseno, Filipe Almeida, Eudo Teodosio, Raélison Silva e este que vos fala, arregaçamos as mangas e fomos a guerra. E uma peça fundamental para nos estimular foi o meu Pai (Sallys Batista), só nós sabemos de todas as dificuldades em galgar um pequeno espaço na cidade, mesmo assim, em nossa estreia, em pleno Forricó (aquele da Avenida), e mais, abrindo para a banda Limão com Mel, conseguimos uma grande aprovação do público, nos comprovando que estávamos no caminho certo, a partir daí, tanto o meu pai, como o pai do Filipe Almeida (Nilson do INSS) nos ajudaram da melhor forma possível, nos dando estímulo, e após alguns shows em cidades vizinhas como Umari, Baixio e Russas, decidimos investir na gravação de um CD, este gravado no M.A Estúdio do meu amigo Emanuel Bonfim.

Com o cd em mãos, passamos a percorrer várias rádios da região divulgando o nosso singelo trabalho, sendo que em nenhuma rádio da região foi nos negado passar nossas músicas, algumas até passavam o nosso trabalho assim que a gente saia de lá, nos deixando muito felizes, mas em Icó a história foi um pouco diferente (como sempre), através de amizade, pedimos para alguns radialistas divulgarem o nosso trabalho, na época não existia ou não era tão acessível as redes sociais como hoje, um destes profissionais do rádio que sempre nos deu total apoio foi o Marcondes Reis, talvez por ser músico e saber de nossas dificuldades, mas infelizmente, na época, a grande maioria queria se sobressair em cima de nós, alguns cobravam, outros simplesmente se negavam, sendo que os mesmos faziam programas tocando músicas de bandas que se quer conheciam, ou mesmo tinham a permissão para tocá-las, e mais, sem GANHAR NADA por isso.
Então, num belo dia ensolarado de verão, o meu pai, como de costume, saiu com os nossos CD’s em sua sacolinha, chegando em uma certa rádio, ele travou o seguinte diálogo com o dito “profissional do rádio”, veja:

-Sallys: Bom dia radialista.
-Radialista: Bom dia Sallys o que você manda?
-Sallys: É que estamos passando nas rádios da região divulgando o trabalho dos meninos da Banda Kaoss, e vim aqui entregar um CD pra você passar no seu programa caso seja possível.
-Radialista: Mas é claro, com todo prazer.
-Sallys: Então aqui está o CD.
-Radilista: Pronto, agora como é que a gente acerta?
-Sallys: Como assim?
-Radialista: É por que eu vivo disso, não posso divulgar a sua banda de graça.
-Sallys: Mas é que nós estamos começando, e não precisa passar o Cd todo, você pode até escolher qualquer uma e passar só ela.
-Radialista: Mesmo assim. Tu desenrola aí R$10,00 que já tá bom.
-Sallys: Mas você não trabalha na rádio? Achei que ganhasse pra isso, então eu vou falar com o diretor da rádio.
-Radialista: Você pode falar com quem quiser, mas vou logo avisando que o diretor cobra mais caro.
-Sallys: Então deixa pra lá.
-Radialista: Que isso macho, pois me dá aí R$5,00 que eu passo.
-Sallys: Não, não. Pode deixar, eu vou em outra rádio.
-Radialista: Pois vamo fazer o seguinte, eu sei que você tem um mercadinho, então deixa o CD aí que eu passo, e tu só me dá um litro de Ypióca.

Seria cômico se não fosse trágico, o meu pai saiu da rádio, e claro que não deu o litro do Ypióca pra esse pé inchado.

Então que fique aqui o registro para os amigos radialistas da cidade, Icó está cheio de músicos com trabalhos belíssimos, vocês radialistas (aos que a carapuça servir) tocam ilegalmente músicas de outros cantores e banda sem se quiser ganhar ou pagar nada por isso, então não custa nada nos ajudar, quem sabe um dia quando ficarmos famoso, daremos uma palhinha em seu programa de rádio ;-)
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Bruno Kaoss

Um apaixonado por todas as formas de expressões artísticas, em especial a Música. QUESTIONADOR... Adoro divulgar informações e promover debates sobre questões sociais, econômicas, políticas, ambientais e culturais.

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